Por
Profa . Dra . Sônia Corina Hess (Professora da UFMS)
Ela passou perto de mim carregando 4 sacos com latinhas de alumínio.
Era manhã de terça feira de carnaval, e seus pouco mais de um metro e
meio de altura estavam quase que ocultos, sob os pesados sacos.
Me envergonhei, também, pela quantidade de garrafas plásticas e outros
resíduos que vi pelas ruas. Sou humana, e o que os meus semelhantes
fazem, repercute em mim. Certamente, pouca gente se importa com o
destino dado aos resíduos gerados em suas atividades diárias.
Tenho uma vida confortável, carro, alimentos, moradia, todos os bens
de que necessito para atender a minhas necessidades. O problema é que
sei que, cada vez que me alimento, provavelmente, estou consumindo o
produto de uma cadeia que começou no campo, onde trabalhadores pouco
remunerados estiveram expostos a venenos e a precárias condições de
vida.
Quando descarto embalagens, sei que a maioria vai ser transportada a
algum aterro ou lixão, e me pergunto por que tem que ser assim.
Grande parte dos plásticos, cuja produção começa em poços de petróleo,
passando por refinarias, indústrias petroquímicas, indústrias de
transformação, produção de embalagens, indústrias de alimentos e
outros produtos, distribuição e comercialização, têm como destino
final quase certo o lixo, depois de terem sido úteis aos consumidores,
efetivamente, por poucos minutos. Portanto, muita energia e materiais
têm sido despendidos para produzir-se itens úteis por muito pouco
tempo. Na melhor das hipóteses, alguns itens são reciclados, mas seu
ciclo termina nos aterros.
O vidro, cuja produção começa com areia, em indústrias consumidoras de
muita energia, praticamente não tem mercado para a reciclagem,
sabendo-se que vão ser, mesmo, descartados nas ruas ou aterros.
Os metais ferrosos, que saem das jazidas e passam por indústrias
siderúrgicas, consomem carvão vegetal ou mineral em seu processamento.
No Brasil, grande parte do carvão utilizado em siderurgia provém de
florestas nativas, incluindo a Amazônia, a Caatinga, o Cerrado e o
Pantanal. Isto não é levado em consideração pelos consumidores, quando
compram geladeiras, carros ou outros bens de consumo.
Os materiais orgânicos (provenientes de jardinagem, culinária, feiras,
etc) podem ser transformados em adubo, mas geralmente são encaminhados
a aterros ou lixões, constituindo mais de 60% dos resíduos das cidades
brasileiras. Se convertêssemos os resíduos orgânicos em adubo e biogás
(energia), também evitaríamos muitos danos causados pela produção,
transporte e uso de adubos químicos, insumos importados pelo Brasil em
grande quantidade.
Se muita gente se sentisse responsável pelo resultado de seu modo de
vida, sobre seus semelhantes e o ambiente, teríamos uma revolução
jamais vista nesta civilização. Cada item a ser adquirido passaria
pelo crivo da consciência, verificando-se como foi produzido, no que
resultou sua produção, e como se dará seu destino final.
É possível mudar, enxergar, lutar. É preciso ver-se a dor associada a
cada bem de consumo, para que as escolhas mudem. Sem consciência não
há mudança. Já houve muita gente, na história da humanidade, que
cometeu terríveis erros, por não querer vê-los claramente. Temos que
sair desta nova era da obscuridade e assumirmos nossas culpas. Não
adianta fingirmos que não as temos, porque os miseráveis que vivem do
lixo que produzimos estão por aí, na rua, na nossa frente!!!! As
enchentes, os esgotões a céu aberto também mostram, claramente, a
natureza infame do comportamento dos brasileiros que se pensam
civilizados, neste início do século 21.