PERGUNTAS

 

Por Profa . Dra . Sônia Hess (Professora da UFMS)

Em outubro de 2009 quando, supostamente, a ciência já explica muito sobre o desencadeamento de doenças em decorrência da exposição a materiais tóxicos presentes no ambiente, presenciei quando um trabalhador usava um solvente (“thinner”) contendo benzeno e tolueno, para retirar resíduos de cola de uma forração de parede. Expliquei a ele que aquele material era perigoso, e que ele poderia ter sérios problemas de saúde devido à inalação daqueles vapores. Ele falou que já não estava se sentindo bem, e que não sabia que poderia haver correlação entre o uso daquele material e a tontura e mal estar que estava sentindo.

No dia seguinte, um vizinho me contou que teve que se desfazer de alguns móveis que haviam sido deteriorados pela ação de cupins, e que havia contratado o porteiro do prédio para aplicar veneno em sua casa, na tentativa de eliminar os insetos.

Pergunta-se: se conhecessem todos os danos e dores associados aos produtos que compram, os consumidores manteriam seu padrão de consumo?

Se presenciassem o sofrimento dos animais, percebessem os odores e sons dos criadouros e abatedouros onde estes seres são torturados e mortos, será que continuariam a consumir carne?

Se também fossem banhados por venenos agrícolas aplicados em grandes plantações industriais, e se tivessem que consumir água contendo seus resíduos, será que não lutariam para que os alimentos fossem produzidos de forma orgânica?

Se tivessem que, por um dia sequer, cortar cana-de-açúcar sob um sol escaldante, portando roupas pesadas, e respirando a fuligem resultante da queima, será que não iriam querer que seus carros fossem abastecidos com um combustível produzido de forma menos cruel?

E se soubessem que milhares de pessoas morrem por ano no Brasil devido à exposição aos poluentes resultantes da queima da gasolina e do diesel, e que tais mortes poderiam ser evitadas se estes combustíveis tivessem melhor qualidade, será que não exigiriam que a Petrobras fosse punida por tais mortes e que oferecesse aos brasileiros produtos com qualidade igual aos que são fornecidos aos japoneses e europeus?

Se visitassem uma carvoaria, e vissem que árvores nativas são processadas em fornos rudimentares, por trabalhadores ultrajados e maltratados, será que iriam querer comprar geladeiras, fogões e outros eletrodomésticos contendo aço produzido em siderúrgicas brasileiras, que usam carvão vegetal como matéria-prima?

Se soubessem que mais de 60% do lixo urbano é constituído por resíduos orgânicos, que poderiam gerar adubos e biogás, será que não estariam dispostos a separá-los dos demais, para que tivessem o tratamento adequado?

Jogariam plásticos na rua ou no lixo, se pensassem em todo o seu processamento industrial, que inclui, pelo menos: - extração em plataformas de petróleo; - transporte até refinarias; - transporte e transformação em indústrias petroquímicas; - transporte para uso em indústrias de produtos manufaturados, incluindo embalagens; - e transporte até os revendedores e consumidores finais?

Continuariam tratando vidro, papéis e metais com displicência, se conhecessem, plenamente, todos os custos e danos envolvidos na sua produção?

Comprariam alimentos industrializados contendo nitratos e nitritos como conservantes (códigos PVII e PVIII), sabendo que estes são comprovadamente carcinogênicos, como muitos outros componentes de cosméticos, detergentes e outros produtos de amplo emprego?

Em um caso elucidativo, também em outubro de 2009, um juiz decidiu contrariamente ao pedido de uma comunidade do interior da Bahia, para que fossem encerradas as atividades de uma mineradora de urânio (da INB, uma empresa estatal), devido à contaminação da região por materiais radioativos. Apesar de laudos terem comprovado que há materiais radioativos no ar e na água fornecida à população próxima à mina, o juiz alegou que não havia provas conclusivas sobre os riscos à saúde associados àquela mineradora. Será que, se morasse na localidade sob influência direta daquela mina, e tivesse que consumir a mesma água fornecida à comunidade local, a decisão daquele juiz teria o mesmo teor?

É importante ressaltar que as autoridades da área de saúde têm relatado que, no Brasil, o câncer constitui-se em uma epidemia que, em 2007, ocasionou a maior parte das mortes de mulheres com 30 a 49 anos, e que esta também foi a segunda maior causa dos óbitos de pessoas com mais de 50 anos. Levando-se em conta os dados científicos que apontam que mais de 80% dos casos desta doença são desencadeados por fatores de risco presentes no ambiente, há de se perguntar por que é que autoriza-se a adição de substâncias reconhecidamente carcinogênicas a alimentos industrializados (como o adoçante aspartame, os conservantes de carnes nitratos e nitritos (PVII e PVIII), entre outros?). E por que é que as águas de abastecimento não são submetidas a controle de qualidade para garantir-se que não contenham materiais capazes de desencadear o câncer?

Percebe-se que, para evitarem que perguntas desta natureza sejam feitas, e suas inconvenientes respostas encontradas, os sistemas político e econômico usam de meios bastante eficientes para manterem adormecidas as mentes dos consumidores, que terceirizam suas culpas e omitem suas dúvidas. Até quando?

 

 

 

 

NASCENTES DA SERRA - SANTA CATARINA - BRASIL - 2009