A AGRICULTURA DO BRASIL NÃO PRECISA DE ADUBO QUÍMICO

 

Por Letícia Weigert, agricultora orgânica, Rancho Queimado, SC.

Lavoura de tomates orgânicos: 3,2 toneladas de tomates colhidas de 400 pés. Alta produtividade, alta rentabilidade sem adição de adubos químicos.

Como agricultora sempre sustentei (intuitivamente) a tese de que a agricultura no Brasil poderia eliminar o uso de adubos e defensivos químicos. A razão desta minha teoria, baseia-se no fato de grande parte da produção de alimentos dar-se em unidades familiares de produção.

Sendo assim, resolvi ir mais a fundo e estudar sobre o que eu andava dizendo por aí. Ao pesquisar sobre os números da agricultura familiar no Brasil, encontrei um interessante estudo de Carlos Guanziroli, autor do livro Agricultura familiar e Reforma Agrária do Séc. XXI. Neste estudo, feito em 95/96, Guanziroli fez um comparativo muito interessante sobre a agricultura familiar e a agricultura patronal. Os números apresentados, foram para mim surpreendentes, haja visto que eu já esperava valores favoráveis às unidades familiares de produção. É claro que eu estava querendo puxar a brasa para a minha sardinha.

Segundo Guanziroli o número de estabelecimentos da agricultura familiar equivalia na época a 85,2% do total no Brasil, e o número de pessoas trabalhando de 76,9%. Outro valor interessante foi o volume de financiamentos rurais: 25,3% para agricultura familiar, contra 73,8% para o patronal. Ou seja, muito dinheiro para poucos. Contudo, o número que mais me chamou a atenção foi a renda anual por hectare: R$ 104,00 na agricultura familiar, contra R$ 44,00 no patronal. Observando todos os dados da pesquisa, concluí que o modelo da agricultura brasileira está lamentavelmente equivocado.

Agora analisemos outro aspecto. Pela minha experiência de agricultura orgânica afirmo que qualquer unidade de agricultura familiar pode tornar-se agroecológica, seguindo os mais rigorosos modelos de sustentabilidade. Na agroecologia, o agricultor desenvolve um manejo de forma a estimular a produção do NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) na própria terra, sem ter que gastar grande parte do lucro das lavouras com produtos químicos fabricados por empresas multinacionais. É uma transição bem simples, porém necessita dedicação, trabalho e muita coerência de princípios.

Juntando as informações, você leitor, tem noção do que isso significa? Eliminar o adubo químico de mais de oitenta e cinco por cento das unidades de produção agrícola do Brasil?

Todos sabemos que é a agricultura familiar que põe a comida na mesa do brasileiro e os latifúndios plantam monoculturas transgênicas para exportação. Os ruralistas patronais já iriam saltar dizendo que geram muitos empregos, mas isso não é verdade segundo o estudo de Guanziroli.

Ora, se mais de oitenta e cinco por cento das unidades de produção agrícola - que de fato põem a comida na mesa do brasileiro - podem trabalhar num sistema produtivo sem o uso de adubos e defensivos químicos, torna-se bem óbvio que indústrias como Bunge e Monsanto poderiam receber do Brasil um cordial “com licença”.

Infelizmente as terras de cultivo agrícola no Brasil estão altamente salinizadas devido ao constante uso de adubação química e o futuro disto são terras improdutivas. Em outras palavras: terras mortas.

Realmente o modelo está equivocado. Mas nunca é tarde para se começar um trabalho de formiguinha.

Morango: o grande vilão dos agroquímicos. Nesta foto frutos 100% orgânicos.

 

 

NASCENTES DA SERRA - SANTA CATARINA - BRASIL - 2009